Viajar é sempre ir para voltar com a cabeça cheia de livros.
Tenho esta ideia de que viajar é como ler três romances em cinco dias. São tantas as histórias, as cores e as personagens, que sinto que as páginas de papel ficam sempre aquém do vento na cara. Regressei a Amesterdão, dez anos depois de lá ter estado, isso também só pode significar que as sementes que são para germinar dão mesmo fruto.

A capital dos países baixos é muito mais interessante do que a fazem parecer. Faz-me lembrar aquela mulher bonita, cheia de substância, mas que vive escondida debaixo da franja da sua timidez. Amesterdão não é a capa: não é o “Red Light District”, nem os “space cakes”, nem as drogas legais nem só uma cidade do norte da Europa com muita água. Amesterdão é um modo de vida que nos devia inspirar mais do que muitos postais juntos.

A lógica de vida dos holandeses, a facilidade com que circulam porque a cidade lhes permite, a escolha da bicicleta como meio de transporte, o desprendimento da “melhor bicicleta”, a bicicleta que é só a que for, já que entre o ponto “a” e “b” só interessa mesmo chegar, sem “cavalos a galopar no peito”. Depois, a normalidade com que os adultos fazem as crianças aceitar o frio. A facilidade com que apanham os filhos na creche às cinco da tarde para os vermos seguir, de mãos destapadas, a sentir o vento gelado desenhar-lhes – nas mini-bochechas – um sorriso feliz. Ainda, a janela de casa aberta, sem cortina corrida, porque olhar para dentro está ao mesmo alcance de não olhar. A arquitetura, as casa recuperadas – todas elas – como lógica de vivência urbana tão simples que até parece absurdo não ser plagiada. A preciosidade que é viver ao ritmo da luz solar, acordar cedo e deitar quando o sol se põe. Não me lembro de ter estado num lugar tão gelado em que visse crianças e adultos tão felizes.

Se o mundo fosse um lugar perfeito, juntava a Amesterdão o sol de Roma, a elegância de Viena e o nevoeiro enigmático de Praga. Mas como o mundo é bonito por não ser perfeito, só vos posso dizer que voltei de Amesterdão com a cabeça cheia de livros. Acho que escuso de dizer que não li nem um.
Marta Couto













